Vamos conversar!
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2024-05-14     Pablo Barros     Maturidade

A educação que falta

Quando você imagina uma situação desagradável por menor que seja, aquilo faz você se sentir mal, como se realmente estivesse acontecendo. Uma cena de um filme de terror pode sim gerar uma reação fisiológica imediata, mas afinal, o que isso tem a ver com educação? Simples, isso é resíduo de um realismo inocente, que no fundo no fundo, consiste no hábito de acreditar em tudo que se pensa.

Educação é a capacidade que nós desenvolvemos de desnaturalizar esse hábito e não aquele conjunto de formalidades cotidianas como “por favor”, “obrigado” e “com licença”. A educação deve auxiliar o indivíduo a distinguir o verdadeiro do falso e se isso já foi uma conquista difícil de ser alcançada por parte da humanidade, é de se imaginar que do ponto de vista do indivíduo os desafios sejam ainda maiores.

Vamos olhar para isso de uma forma mais prática, analisando como é a formação das nossas próprias convicções e como isso pode se confundir com a nossa capacidade de elaborarmos uma ideia. Veja, de várias ideias que podemos ter, nós costumamos acreditar naquelas que conseguimos formular, pois o simples fato de poder pensar nela faz com que ela pareça real. Todavia, muitas vezes acontece de outra pessoa elaborar uma ideia totalmente diferente acerca da mesma questão. E agora?

Bom, neste momento é preciso entender que para além dos esquemas argumentativos que escolho deve existir uma realidade que talvez não esteja sendo captada pela minha capacidade de argumentar. Isso deixa claro a minha limitação em dialogar com a realidade, mas acima de tudo, mostra que o fato de pensar em uma coisa não significa que isso a transforma em verdade.

Minha experiência na clínica mostrou que o indivíduo pode experienciar um sofrimento significativo frente a uma situação vista, mas principalmente por uma situação imaginada, pois o sistema nervoso reage de maneira semelhante nos dois casos. Neste sentido, uma das principais funções da educação é impedir que o indivíduo seja enganado pelo seu próprio pensamento, pelos seus sentidos e por suas lembranças.

O método proposto por René Descartes de submeter tudo a dúvida é algo que neste momento se faz necessário, de modo que, se você duvida de toda a inteligência humana e acredita que a razão pode ser falha, não pode ao mesmo tempo acreditar que tudo que você pensa é verdadeiro.

A educação é fundamental para que você aprenda a duvidar do seu próprio pensamento e ao mesmo tempo fazer você adquirir um sentido de respeito e reverência a inteligência humana. É provável que você comece a perceber que se o seu pensamento é capaz de tocar a verdade algumas vezes isso acontece não por mérito seu, mas por um conhecimento acumulado ao longo da história da humanidade e isso se solidifica na estrutura da linguagem, que não foi você quem inventou.

Aos poucos você começa a ter uma certa desconfiança em relação aos seus argumentos e ideias, aos seus sentimentos e imaginações e aprende a ter respeito por todo o trabalho que já foi feito antes de você. Aqui você começa a se desvincular dos seus preconceitos e dos hábitos mais profundos da sua personalidade e começa se vincular na humanidade.

A educação não pode servir para que o indivíduo deseje obter mais conhecimento sobre o mundo, já que os fatos crescem em uma velocidade e volume cada vez maiores. Neste formato a preocupação se limita a natureza quantitativa do saber e isso faz com que o indivíduo se preocupe apenas com o aspecto subjetivo do seu mundo, olhando apenas para dentro de si e identificando por verdade apenas aquilo que ele é capaz de compreender.

Educação vem de ex-ducere que significa levar para fora, a educação faz você olhar para fora!

É comum algumas pessoas responsabilizarem os seus pais e cuidadores sobre as falhas em sua própria educação, outras transferem a culpa as condições socioeconômicas, porém uma característica marcante é percebida nestas mesmas pessoas...a ausência de responsabilidade pessoal.

Ouvi inúmeras situações em que uma pessoa inocente é demitida porque o seu encarregado tinha inveja dela. Foram abandonadas no relacionamento porque o seu namorado era doido. Não conseguiu se manter na igreja porque o diabo não parava de atormentar. Não avança em projetos de vida por conta do atual Governo. Sempre a culpa está nos outros e nunca nela mesma!

A educação vai te permitir perceber que você tem justificado suas faltas sejam elas pequenas ou grandes e que não assume a responsabilidade por seus próprios erros. Quando as pessoas contestam seus pensamentos e comportamentos você experimenta o que a psicologia conhece por dissonância cognitiva.

A frase “Eu sei que fumar vai me fazer mal... só que mesmo assim eu fumo!” é um exemplo claro de dissonância cognitiva, que é nada mais que tentar sustentar duas ideias ou opiniões contraditórias ao mesmo tempo, o famoso ferro de madeira.

 A mente humana está sempre em busca da clareza e da compreensão de modo que contradições acabam gerando esse comportamento e fuga da responsabilidade.

Você comete um erro e começa a perceber a distância que existe entre o conceito que você tem de si e aquele seu comportamento questionável. Você começa a perceber os elementos antagônicos que existem em sua personalidade. Começa a observar a multiplicidade de impulsos que lutam dentro de você para chegar a sua consciência. Entretanto, você começa a ter consciência dos pontos cegos que o cérebro desenvolve quando nós temos culpa de algo, e saber disso é o primeiro passo para conseguir superá-los. Educação é isso!

Acredito que a esta altura você já tenha se dado conta de algumas características indispensáveis da educação e como a nossa capacidade de assumir a nossa responsabilidade por nossos erros é importante na conquista do amadurecimento.

A psicoterapia permite que você possa enxergar que estes pontos cegos tem uma função na sua vida, perceba, sem estes mecanismos de ausência de responsabilidade você ficaria a vida inteira remoendo algum erro que cometeu no passado (alguns realmente fazem isso). Deste comportamento surgiria a angústia se nós realmente tomamos a melhor decisão, o que nos levaria ao arrependimento.

O problema é que quando essa justificação acontece em excesso os efeitos tendem a ser muito prejudiciais na vida do indivíduo.

Nossa visão de educação parte de algo que não pode ser meramente teórico, não pode se destinar apenas as convenções sociais, não pode se limitar a entender os avanços da ciência, não pode ser objeto de vaidade intelectual, mas acima de tudo isso deve ser a conquista da própria personalidade, deve ser o respeito pela inteligência da humanidade, deve ser algo que permita ao indivíduo olhar para todos os seus elementos negativos dentro de si e transmutá-los como que de forma alquímica em elementos de luz.

A formação de uma cosmovisão (a famosa visão de mundo) se dá através da reflexão de que existe um patrimônio de conhecimentos extensos que se desenvolveram ao longo dos milênios, de modo que se existe uma possibilidade de uma “educação para o amanhã” esta passa por um recuo frente as coisas que estão na moda e um olhar para a atualidade sob a escala da história da humanidade.

Este artigo tem a o objetivo de trazer a luz a finalidade da educação, tema este que dorme um sono profundo, uma vez que a honestidade é confundida com educação, outra vez que a educação proposta nos dias atuais serve a fins obscuros e o resultado é uma juventude que tem se tornado extremamente amarga, ressentida, irritada e cética.

Ao contrário do que disse William James em sua palestra Talk to Teachers com muita convicção: “...O ensino, de fato é uma arte. A ciência da psicologia não pode prestar-lhe a menor ajuda no tocante as estratégias específicas da instrução.” Acredito que a psicologia não só pode como deve atuar de forma contundente na capacitação dos indivíduos sobre si e a partir de uma verdadeira educação, permitir aquela vida uma experiência humana real.

Nem tudo é transtorno mental, na maioria dos casos é apenas falta de educação!

Talvez não tenham te dito, mas a psicoterapia pode te ajudar com isso e a sua vida e da sua família podem melhorar de uma forma inimaginável. Experimente!


Pablo Barros
Psicólogo - CRP 06/190777

Pablo Barros
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