Vamos conversar!
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2024-12-22     Pablo Barros    

Preso na própria casa

Seria muito simples fazer um artigo falando sobre ansiedade que tivesse como slogan a proposta de vencê-la, entretanto, a minha percepção na clínica é de que uma parte significativa do controle da ansiedade passa por compreender o fenômeno de forma mais profunda do que apenas em seus sintomas. Ao término desta leitura é possível que você consiga ampliar seu entendimento e com isso adquirir mais forças para melhorar a sua qualidade de vida.

 

Sempre que pergunto ao paciente o que o fez buscar a terapia neste momento da vida me deparo com a frequente resposta: “Olha, ultimamente eu tenho me sentido muito ansioso”. A partir desta fala nós iniciamos uma grande jornada juntos e hoje eu gostaria de registrar as melhores partes e insights produzidos ao longo de todo este ano no consultório neste breve texto. Vamos lá?

Vale a pena ressaltar que as mudanças ocorridas no mundo e todo o tipo de pressão sofrida nos dias atuais são fontes de diversas emoções negativas e dentre todas a mais conhecida é a ansiedade. Não podemos falar de ansiedade se não falarmos de medo, sim, o medo é uma resposta emocional automática quando nós estamos diante do perigo, real, verdadeiro (guarde bem essa palavra), enquanto a ansiedade é a antecipação de uma ameaça que vem do futuro. O medo gera comportamentos de fuga, luta, excitações e pensamentos de perigo constante. A ansiedade é mais associada a uma tensão muscular e um estado de vigilância com algo que pode acontecer causando muitas vezes os comportamentos de esquiva e uma certa cautela. Pronto! Separamos um do outro para podermos observar suas semelhanças e diferenças mais para frente.

A ansiedade é uma herança evolutiva do homem e que teve muitos benefícios em diferentes etapas da luta humana pela vida ao longo de 3,7 bilhões de ano desde que a vida na terra foi descoberta, porém, esta reação normal pode sim se transformar em um transtorno mental causando diversos problemas psíquicos e emocionais na vida de milhares de pessoas ao redor do mundo. O Brasil lidera o ranking mundial de ansiedade de acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS). Recentemente tivemos dados divulgados de que 26,8% dos brasileiros receberam diagnóstico médico de ansiedade.

É possível que você esteja lendo este artigo de um smartphone, e aqui temos a primeira casca de banana dos nossos tempos, um aparelho que trouxe diversos recursos avançados e que não sai das nossas mãos. Criando um modelo de comunicação entre as pessoas que naturalmente aumentaria os níveis de expectativa na forma de se relacionar consigo e com o mundo, o smartphone assim como as redes sociais podem ser considerados as usinas da ansiedade nos dias atuais.

E agora eu gostaria de apresentar três aspectos da ansiedade para que você possa se orientar de forma prática.

 

RELACIONAMENTO RUIM COM O TEMPO

Diante destes fatos pude observar uma tendência que acompanha a maioria (para não dizer a totalidade) dos meus pacientes que é o famoso “e se...”. O pronome malicioso que se oculta em sua própria sutileza e esconde um perigo enorme para a vida. Viver esperando algo acontecer, viver pelo próximo evento, a próxima fala, o próximo isso, o próximo aquilo...a ausência da presença é o maior prejuízo que a sua ansiedade pode te trazer.

Viva onde estiver! Mantenha sua presença onde a vida acontece realmente! Caso contrário, a sua relação com o tempo será seriamente prejudicada e isso terá consequências devastadoras. Você já refletiu com sinceridade a sua relação com o tempo? Se parecer uma pergunta sem sentido espere mais um pouco e pense bem.

Pensar sobre o tempo é pensar sobre a finitude, em último caso, a morte.

Em 1923, o escritor libanês Khalil Gibran publicou “O profeta” um livro que vendeu até o dia de hoje mais de 100 milhões de cópias por sua profunda sabedoria e nesta obra temos um trecho em que o profeta fala sobre o tempo,  e acho  particularmente valiosa na percepção da ansiedade. Um diálogo entre um astrônomo e o profeta se desenrola e o profeta diz:

“Você gostaria de medir o imensurável e infinito.

 Você ajustaria sua conduta até mesmo direcionaria o curso do seu espírito de acordo com as horas e as estações.

Com o tempo, você faria um riacho e, em sua margem você sentaria e o observaria correndo.

Ainda assim, o atemporal em você está ciente da atemporalidade da vida.

E sabe que o ontem não é nada além da memória do hoje, e o amanhã é o sonho do hoje.

[...]

Se em seu pensamento você deve medir o tempo em estações, que em cada estação compreenda todas as estações.”

 

Você vive no passado? Então você quer justiça e não se conformou (provavelmente sua depressão vem deste lugar).

Você vive no futuro? Bem provável que você não valorize nada daquilo que já possui.

Percebeu que com a simples pergunta: "Eu estou vivendo em que tempo?" você já consegue ter uma visão diferente?

 

TRAGÉDIA CONSTANTE

Outra característica da ansiedade que eu gostaria de falar aqui é o famoso “tudo vai terminar em tragédia”. Em termos clínicos este tipo de pensamento frequente é o que chamamos de catastrofização ou tragificação e ambos apontam para o típico pensamento ansioso de que “algo vai dar errado”. Perceba, a ideia de que algo ruim está para acontecer é uma distorção que a sua mente cria.

Você já deve ter ouvido a frase “gato escaldado tem medo de água fria” e este senso comum se refere a um fato que todos já vivemos, o medo de algo dar errado (um medo natural). Se algo deu errado em sua vida e você não conseguiu suportar a dor é bem provável que você tenha desenvolvido este mecanismo de antecipação da angústia futura.

Aqui é quando percebemos a ansiedade em seu nível patológico, ou seja, quando realmente causa um prejuízo significativo na vida social, profissional e acadêmica do indivíduo. A intensidade do sentimento é desproporcional ao evento que te aconteceu o sentimento assim como as respostas comportamentais e emocionais são extremamente desajustadas. Compra mais, come mais, se droga mais, mente mais e por aí vai isso para não falar das crises.

 

DEUS DA PRÓPRIA VIDA

Agora que estamos chegando no fim eu quero apresentar a causa que mais atrapalha as pessoas ao meu ver quando o assunto é ansiedade, o desejo de controlar tudo.

É impressionante como essa marca é presente na vida de uma pessoa ansiosa, o querer ser exatamente como Deus, controlar cada mínimo aspecto da realidade. Este é um erro comum do ansioso uma vez que ele vive em seu mundo mental o mesmo se fecha a realidade objetiva e acredita ser capaz de mapear todos os eventos vindouros. Curiosamente, o indivíduo carece de uma capacidade básica e elementar a psique humana, a atenção.

O ansioso carece de um foco, quer tudo e sempre deixa algo para depois. Não possui a mínima organização para a execução das tarefas isso é, quando as executa já que a procrastinação também não o deixa em paz.

A perturbação do estado emocional ansioso atrapalha não só os níveis de atenção quanto de memória.

Sim, preste atenção! Olhe a sua volta e perceba o que fisicamente não vai bem. O que mentalmente te preocupa e te incomoda, que não deixa você viver, que você poderia consertar, que você consertaria.

Aqui chegamos na melhor parte do tratamento, e eu disse lá em cima que seria uma viagem longa.

Honestidade consigo mesmo parte de três perguntas essenciais e eu gostaria que você fizesse como se quisesse realmente saber as respostas:

“O que me incomoda?” “É algo que eu possa resolver?” “Eu estaria disposto a resolver isso?”

Se a resposta para alguma dessas perguntas for “não” é melhor buscar em outro lugar. Mude o seu foco mais para baixo (sua alimentação, seu sono, seu sedentarismo, etc.). Procure até encontrar algo que você realmente possa consertar e de fato conserte. Isso pode ser o suficiente para o dia.

Existem problemas que você tem evitado que são a fonte da sua ansiedade. Problemas que você não sabe se é capaz de resolver e você prefere fugir ou até mesmo “ver depois” ( todos sabemos que esse depois nunca chega). A fuga do dever diário é em si mesma a raiz do mal. O ser se realiza em sua atividade, na execução das tarefas e no seu compromisso com a verdade. Permita que as tarefas do seu dia se mostrem a você para que possa admirá-las brevemente antes de encará-las. Concentre-se no dia para que você possa viver no presente e participar corretamente daquilo que está diante de você.

 

Bom, você que chegou até aqui deve ter se identificado com ao menos uma das três características da ansiedade ou até com todas, o fato é que todos os seres humanos são ansiosos em alguma medida, ninguém se cura de ansiedade pois como vimos é uma herança biológica que carregamos ao passar do tempo. Percebemos que é necessário controlar as nossas reações frente aos acontecimentos para que possamos medir se estamos dentro da realidade ou dentro da nossa cabeça.

A desatenção anda de mãos dadas com a ansiedade, posso dizer até que as duas são grandes amigas. A falta de um senso de orientação ou até mesmo de um sentido nas ações gera no cérebro uma sensação incomoda e o cérebro por sua vez repassa ao indivíduo essa sensação através da ansiedade.  

Agora que você já conhece a ansiedade de uma forma mais íntima eu preciso te passar uma técnica milenar, um exercício de presença que é muito eficaz para o combate e controle das emoções e pensamentos, a famosa, meditação.

O exercício não tem uma finalidade religiosa e muito menos espiritual e por isso tenho o cuidado de não dar a impressão de que por que funciona comigo vai funcionar com todo mundo. Sou consciente de todos os elementos genéticos, pessoais e culturais da minha história que não são compartilhados com todos.

No decorrer da prática clínica eu pude observar que exercícios de respiração apresentavam ótimos resultados em situações de crise, o maior desafio era conseguir fazer o paciente adquirir os ganhos da atividade contemplativa (capacidade de parar e observar) de maneira simultânea a capacidade de autoregulação através da respiração. Muitas pessoas tem experiências frustradas com a meditação uma vez que a concentração na respiração não preenche a lacuna que a pessoa está buscando. As pessoas geralmente buscam respostas para o que acontece depois que se morre e não sobre a quantidade de ar em suas narinas, porém para que se possa compreender a morte é necessário compreender a vida. Se você for capaz de perceber o que acontece com você quando um momento termina e outro começa, você tem uma boa chance de compreender o que irá acontecer quando você morrer. Se você conseguir se observar em um simples gesto com a respiração vai conseguir entender muitas coisas. Você nunca parou para pensar nem cinco segundos sobre a sua própria respiração sem que a sua mente comece a divagar com fantasias e preocupações.

Após uma observação honesta e cuidadosa sobre a sua respiração eu te convido a olhar para as suas sensações corporais, mas não as extravagantes e especiais, as outras, as comuns como calor, dor e por aí vai. Você vai perceber que muitas das suas ações são condicionadas por como você se sente, se é agradável queremos mais e se é desagradável desejamos distância.

Quer saber o que é tristeza? Deixe-a agir em você! Perceba tudo aquilo que ela está te comunicando. Muitas vezes nos focamos naquilo que é objeto da nossa tristeza/raiva e nos esquecemos de olhar as nossas reações ao que estávamos sentindo.

Meditação é um termo que muitas vezes é associado ao misticismo e a religião, porém meditação é qualquer método de observação direta da própria mente. Você pode chamar de exame de consciência, oração, enfim o que importa é que você consiga perceber os padrões da sua mente. Não busque experiências especiais ou pirotécnicas, o segredo repousa em compreender a realidade da sua mente, seja ela qual for.

O Sermão da Montanha traz uma ideia que nos dias de hoje se desfez nos ventos do marketing pessoal e do materialismo que é a noção de viver no presente.

“(...) Portanto, não se preocupem com o amanhã, pois o amanhã se preocupará consigo mesmo. Basta a cada dia o seu próprio mal.” Mateus. 6:34.

 

 

Viver no futuro é viver sofrendo pela incerteza, é se tornar o passageiro da agonia e se fechar em si mesmo. Não faça isso!

Busque autoconhecimento. Fortaleça sua mente!

Faça psicoterapia.

 


Pablo Barros
Psicólogo - CRP 06/190777

Pablo Barros
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