A princípio tenho que dizer que o objetivo deste breve artigo não é de encerrar o conceito do amor, mas acima de tudo, evidenciar alguns obstáculos que a imaturidade nos relacionamentos pode proporcionar aos casais. Antes de tudo é preciso apresentar a vocês de onde vem o padrão afetivo de cada indivíduo a fim de ilustrar o território que nós iremos trabalhar neste artigo.
A história da felicidade e da infelicidade surge logo cedo, na primeira infância, pois para que uma criança comece a lutar pela felicidade é necessário que algo tenha lhe causado uma tristeza. A ideia de se gostam dela ou não começa a surgir para criança com base em seguidas experiências de frustrações repetidas que a fazem se sentir amada ou rejeitada. Pessoas que são presas nesta etapa da personalidade, costumam evitar desafios, são aqueles tímidos, que se tornam dependentes dos afetos e que não querem vencer, querem apenas ser amados.
A solicitação afetiva constante é fruto de um estágio de imaturidade, que não permite que a pessoa desenvolva as potencialidades superiores, permanecendo assim, cristalizada na forma de um desejo de amor e de afeto que fazem com que a pessoa nunca consiga agir em benefício próprio a não ser com o apoio alheio.
Com base neste panorama, o indivíduo começa a se sentir especial, que tem direito a absolutamente tudo e se essa demanda de carência afetiva permanece ao longo da vida é sinal de que este indivíduo não está pronto para se relacionar de forma genuína.
Agora que já sabemos um pouco sobre o desenvolvimento afetivo do indivíduo, vamos nos voltar a questão do amor.
Desde o bom tempo da Grécia antiga já se falava do amor através de Platão e logo foi aplicado na doutrina estoica também; A idade Média aprendeu muito sobre o amor com Tomás de Aquino e os árabes; o século XVII estudou ainda mais com as proposições de Descartes e Spinoza. Muitas concepções, alguns equívocos, porém, é indiscutível que o amor foi e continua sendo o tema de reflexões ao longo dos tempos.
Nada por ser mais fecundo no ser humano do que o amor tanto que vem a ser o símbolo da fecundidade. O amor faz nascer em cada indivíduo o desejo, as ações, os pensamentos e por aí vai. Aqui vale a primeira distinção clara sobre o nosso texto que é justamente a confusão entre amor e desejo. Podemos desejar algo que não amamos. Desejar é ter o objeto como fonte da nossa possessão, necessitando que ele faça parte de nós. No amor, nós estamos sempre dispostos a sair de nós mesmos e nos entregarmos em sacrifício ao outro muitas vezes.
Hoje em dia considera-se a satisfação sexual como a expressão mais importante do amor, de modo que o que mais conta é o prazer. Este prazer vai fazer com que a natureza da imaturidade se apresente no ato de amar e algumas características comecem a surgir.
O indivíduo começa a divinizar o amor, exaltando a vida conjugal como algo extraordinário e maravilhoso, esquecendo que o amor é uma tarefa esforçada de melhoria contínua de cada um. O convívio costuma escancarar os defeitos, colocando cada um no seu lugar e a verdade surge sem máscaras, de modo que, toda idealização se esfarela. Quando se é maduro as diferenças e divergências acabam por ser superadas, em contrapartida, na imaturidade os conflitos se tornam cada vez mais presentes.
O imaturo desconhece que os sentimentos são dinâmicos e não estáticos, todos podem ser melhorados através do que se conhece por artesanato psicológico. O amor se constrói dia após dia, com muito esforço para evitar atritos, contornar dificuldades, corrigir defeitos e uma expressão de carinho e afeição saudável.
Agora vamos perceber que a afeição e o carinho em excesso são rechaçados desde a primeira infância, quando nós abraçamos a criança em excesso, quando tentamos beijá-la sem que ela tenha solicitado aquele carinho... bom, você deve ter percebido que ela não gostou nem um pouco e é bem provável que você a tenha irritado. O imaturo tenta introduzir o outro em seu projeto pessoal de felicidade, esquecendo assim que o outro é outro.
Educar a afetividade é uma forma de fazer com que seus relacionamentos se tornem duradouros e saudáveis. Ter princípios relacionais sólidos como o diálogo, a verdade, a reciprocidade afetiva e o respeito, vão fazer com que seu relacionamento se torne sólido, capaz de resistir as dificuldades impostas pela vida. Estes princípios que listei acima só são possíveis em uma pessoa madura.
Quando você negligencia estes princípios, você irá atacar uma estrutura, de modo que, ferir o princípio da verdade é utilizar de mentiras, com uma simpatia forçada, com um querer agradar que nunca acaba e até mesmo com a traição. O respeito é quebrado através da violência, seja ela psicológica, verbal, afetiva e em muitos casos violência física. O diálogo é quebrado com o orgulho e a vaidade de estar sempre certo, impondo sua vontade sobre o outro. A reciprocidade afetiva é quebrada com a noção imatura de que afeto é uma coisa incondicionalmente boa, a reflexão sobre a criança que fiz acima serve para ilustrar que o afeto não solicitado e desmedido causa repulsa.
Se você chegou até aqui, eu quero te dar uma dica valiosa para que você cresça em maturidade e por consequência melhore o seu relacionamento de maneira substancial.
Aprenda a fazer silêncio! Isso mesmo, silêncio e por favor, não entenda isso de forma figurativa, estou falando de fazer silêncio mesmo, ou até como costumo dizer aos pacientes existir no silêncio. Uma pessoa que não consegue se recolher no silêncio ainda nem começou a viver, de modo que, a vida para ela é só barulho e confusão. Aqui não tem mistério, é calar a boca e os pensamentos. O silêncio mental é algo a ser conquistado as duras penas, tendo que calar as lembranças, a imaginação e os pensamentos desgovernados.
O que vem antes do barulho mental é o estado de concentração! A capacidade de estabilidade mental se dá através do uso da razão, que por sua vez esta intimamente ligado com a suspensão de uma emocionalidade desgovernada, ou como vemos no imaturo, uma hipersensibilidade a tudo.
Os diálogos internos, se tornam os grandes vilões em nossas vidas, dificultando a nossa capacidade de repousar no silêncio.
Sem a capacidade de ouvir sem julgamentos é que podemos perceber a realidade ao nosso redor e através dela crescermos para desfrutar de um relacionamento cada vez mais saudável.
Pablo Barros
Psicólogo - CRP 06/190777