Cientistas já descobriram que há cerca de 3 mil anos as pessoas já ficavam sob efeitos de drogas alucinógenas, de modo que, as antigas civilizações já usavam drogas derivadas de plantas e arbustos. De acordo com os pesquisadores as substâncias utilizadas tinham um potencial alucinógeno muito forte e podem ter sido utilizadas em rituais nas cavernas inclusive por xamãs. O meu objetivo com essa publicação não é apresentar as origens das drogas, mas falar sobre como a dependência química é uma condição que tem ganhado cada vez mais espaço em nossa sociedade e todos os impactos que ela causa não só na vida dos usuários como dos seus familiares.
A droga surge na vida de diversos homens como uma estratégia de enfrentamento das adversidades cotidianas e do sofrimento, dito de outro modo, uma válvula de escape. Essas estratégias tem uma dupla função: te manter firme durante uma situação de estresse e auxiliá-lo na resolução de um problema específico.
O escapismo é uma forma de fugir do mundo real, buscando a segurança e o bem estar em um mundo de fantasias. Este universo ficcional pode muitas vezes gerar no indivíduo uma sensação de poder, de ser bem sucedido ou até mesmo de sentir importante.
No mundo em que vivemos uma das maiores formas de escapismo é a tecnologia, pessoas vivem procurando assuntos importantes, acompanhando a vida de celebridades, se esforçando para escapar da realidade onde vivem realmente. Outro elemento que pode ser visto como escape são as viagens, uma vez que, muitas pessoas não buscam conhecer um lugar novo, mas apenas fugir do lugar em que estão.
Mas voltemos a questão das drogas!
De acordo com a perspectiva fenomenológica, o homem é um ser inacabado, entregue a sua própria sorte e aos seus próprios cuidados. Ora, este homem de acordo com essa visão de mundo, está fadado a uma espécie de “vulnerabilidade existencial” condição essa que fará que o mesmo busque sempre algo em que se apoiar e impossível de ser modificada. Existe uma condição ontológica do homem que o leva ao ter-que-ser alguma coisa, para que sua vida ganhe sentido.
Existem duas formas de encarar este ser no mundo de acordo com a fenomenologia, uma é o ser mortal e a outra é o ser livre (guarde bem essa palavra, livre). Em nossa vida cotidiana o ser humano experiencia essa condição através do sentimento de angústia e de culpa. Muitas pessoas entendem essa necessidade de dar um sentido para a própria vida e que não é possível que ninguém faça isso por você, dessa forma, o mundo passa se tornar um lugar incômodo, difícil, se tornando um fardo a ser carregado.
Em nossa história é impossível não perceber todos os métodos criados pelo ser humano para alterar a sua consciência, desde o prazer em girar que uma criança sente ao cair tonta no chão, até mesmo práticas como o jejum, a dança, a meditação e até as práticas mais radicais que colocam a vida em risco como o salto de paraquedas, a corrida de automóveis e até mesmo as ousadas escaladas ao topo do Everest. É somente através destas práticas que o ser humano ultrapassa os seus limites e se sente criador, se sente livre.
Agora que já apresentei algumas bases para refletirmos, vamos pensar sobre a dependência que é o oposto de ser livre.
O QUE É DEPENDÊNCIA QUÍMICA?
A dependência que uma pessoa desenvolve por uma substância psicoativa é considerada uma dependência química.
DOENÇA PSICOLÓGICA
É muito comum que as pessoas atribuam este termo ao consumo de cocaína, crack e até mesmo a maconha, porém, outras substâncias também exercem efeitos psicoativos como o café, cigarro, pornografia, redes sociais e bebidas alcoólicas isso sem falar nos diversos medicamentos comercializados. De modo que, essas substâncias exercem efeitos diretos no comportamento e causa reações nos estados físicos e psíquicos de cada indivíduo.
A palavra vício, vem do latim vitium que significa defeito, neste caso podemos enxergar de duas maneiras: vício como defeito e vício como dependência. É importante diferenciar para fins de esclarecimento e categorização e uma maneira de diferenciar se essa condição tem acarretado prejuízos é observando a manifestação na vida do sujeito.
Muitas variáveis contribuem para essa condição sendo elas psicológicas, ambientais, biológicas e sociais. Deste modo é quase que impossível reduzir apenas uma causa responsável pela origem da dependência química em cada indivíduo.
SINTOMAS
Alguns sintomas podem ser identificados como alteração no convívio social, descontrole financeiro, alterações comportamentais, negligência consigo mesmo e principalmente as crises de abstinência.
Outro aspecto que é importante observar é a quantidade da substância que o sujeito precisa, de modo que, à medida que o grau de dependência aumenta, o organismo vai desenvolvendo uma tolerância aos efeitos, fazendo com que o indivíduo precise de doses mais altas da substância para obter a mesma sensação positiva.
O aumento da concentração de dopamina, neurotransmissor envolvido no processo de saciedade e prazer é a neurobiologia das drogas. Todas as substâncias psicoativas agem diretamente no sistema de recompensa do cérebro. O prazer intenso causado pela substância faz com o cérebro dê origem ao sistema associativo (droga – prazer – droga). Conforme o indivíduo faz o uso repetidas vezes os neurônios que liberam a dopamina começam a entrar em atividade ao reconhecer os estímulos psicológicos e ambientais vividos nos momentos prévios ao uso.Por isso uma importante dica ao dependente é identificar a situação que precede o uso.
ABSTINÊNCIA
A depender do tipo de substância que o indivíduo faça uso, sinais de abstinência podem surgir, sendo estes os mais comuns:
TRATAMENTO E REDUÇÃO DE DANOS
Antes de mais nada, é importante ressaltar que a dependência química não se trata de uma vontade de consumir determinada sustância, mas sim da incapacidade de não consumir e por isso ela deve ser percebida por amigos e familiares como uma doença.
É bem provável que o individuo tenha que lutar durante toda a vida para conseguir resistir a essa condição. Não é impossível que o indivíduo consiga vencer essa luta sozinho, porém, é importante o cuidado com uma equipe multidisciplinar especializada já que não se trata de uma questão de força de vontade, mas de efeitos bioquímicos produzidos pelo organismo.
Tendo em vista a dificuldade a este combate é importante também a construção de uma estratégia para a redução de danos causados pela droga.
Dessa forma o objetivo passa a ser a autonomia e o engajamento do paciente no tratamento, possibilitando assim minimizar os danos causados sem necessariamente suspender o uso.
E A LIBERDADE?
Você jamais exercerá sua liberdade enquanto for condicionado a algo ou alguém. Enquanto for a substância que tem o controle da sua vida, você é dependente, dito de outro modo, você é um escravo!
Sua capacidade de decidir foi totalmente solapada e agora você faz o que a substância manda. A liberdade do querer, do fazer já não se encontram mais em suas mãos. Você vai perdendo a sua forma humana e a cada dia vai se tornando algo mais próximo de um animal, condicionado pela parte mais baixa do seu ser. Todavia, você deve se dizer várias vezes “Eu paro quando eu quiser!”, o problema é que você não quer, já que nem sobre a sua vontade você tem o domínio. Ser livre é exercer aquilo que o homem foi chamado a ser, alguém que é útil, que serve ao próximo, que age diante de quem se ama, que encontra no sofrimento um aprendizado, que resiste com bom ânimo as dificuldades. E aí sim... Se depois de tudo isso você quiser se permitir algo de forma controlada, prudente e sábia, quem sou eu para te dizer que não pode? Mas lembre-se, você usa ou é usado?
Pablo Barros
Psicólogo - CRP 06/190777