Neste artigo eu quero convidar você a refletir sobre como a busca por entretenimento e diversão podem estar nas raízes de muitas dificuldades das quais você se queixa. Mas afinal, quem poderia dizer que a diversão poderia gerar o tédio?
Do ponto de vista psicológico o lazer deve ser compreendido a partir do significado que cada pessoa dá a atividade e não a atividade em si, sendo assim, único a cada um de nós. Porém, quando olhamos para a nossa sociedade percebemos que a busca desenfreada por estímulos de prazer pode servir de alerta para a nossa condição atual e a nossa relação com o sofrimento.
É bem possível que você já tenha se dado conta de que atualmente existe uma cultura da espetacularização da realidade, fazendo com que a vida de muitos de nós seja feita como uma espécie de propaganda e isso se dá por conta do uso sem controle das redes sociais. Para ilustrar este movimento gostaria de descrever uma situação que provavelmente você já viveu: faz pouco mais de 1 minuto que você guardou o seu celular no bolso, mas, sem se dar conta, o seu dedo já está rolando a tela novamente em busca de algum fato novo. Não há nada de interessante, afinal só se passaram 90 segundos.
Você pode não perceber, mas a cultura do entretenimento gera a condição de que você sinta um prazer imediato e o esqueça logo em seguida. Isso irá te colocar na lógica consumista: uma ideia de que podemos obter experiências, comprar produtos, esgotá-los e consumir tudo novamente no dia seguinte. Uma forma de perceber isso é quando você enxerga que o mercado oferece produtos que se tornam “antigos” bem rápido, gerando a ideia de descartabilidade.
Zygmunt Bauman foi um sociólogo que identificou que essa mesma lógica de consumo se aplica as relações sociais, de modo que estas, se tornam cada vez mais substituíveis e descartáveis. O resultado desta cultura do entretenimento e do espetáculo é a total alienação do indivíduo, dito de outro modo, é a falta de um núcleo, o indivíduo perde o eixo central da sua própria existência.
O uso do tempo livre pode gerar tanto consequências positivas como negativas na vida de cada indivíduo, podendo contribuir para o seu bem-estar ou alienando o sujeito e atrapalhando seu desenvolvimento pessoal. Desde o início dos tempos sempre houve um processo de padronização do pensamento e da linguagem por parte das instituições que inserem o indivíduo na sociedade, porém, no século XX houve um processo de massificação que vai muito além de padronizar o pensamento e a linguagem, que consiste em afogar o indivíduo na massa, fazendo com que ele possa agir igual a todos e não se sinta responsável por isso.
Martin Heidegger afirmou que a pessoa humana precisa se afirmar de modo autêntico por meio de sua liberdade, muitas vezes tendo que ir contra o fluxo daqueles que não tem coragem de assumir uma identidade própria. A ideia aqui não é ser o “diferentão”, mas compreender que você não precisa existir neste fluxo contínuo de informação que é a internet, não precisa gostar do que todos gostam, odiar como os outros odeiam. Heidegger percebeu que existe um movimento bem paradoxal: a pessoa que não está integrada na massa sofre por se sentir alienada, ao mesmo tempo, a pessoa que se integra na massa também se sente alienada.
Neste modelo de massificação existe uma outra alternância que complica muito nossa vida atualmente que é o gerenciamento entre o trabalho e o ócio. Na vida moderna a pessoa gasta todas as suas energias no trabalho e não sobra tempo para mais nada, ou melhor, sobra sim, para os passatempos. Neste momento a pessoa começa a consumir aquilo que é produzido pela cultura do entretenimento. A consequência disso é ter o seu tempo de silêncio e de reflexão sobre o sentido último da vida esvaziado.
A proposta aqui é de cultivar uma vida interior por meio da meditação no tempo ocioso. Se um indivíduo vive em um ritmo frenético, automático, mas não tem tempo para examinar a própria vida, essa pessoa pode ser um bom profissional, um bom esposo e até mesmo um bom pai, mas sempre irá carecer de uma vida interior.
A pessoa que se ocupa com passatempos tem uma personalidade diluída nas realidades exteriores e acaba por internalizar padrões que prejudicam a sua vida. A fixação por noticiários de televisão, onde a pessoa é exposta a todo tipo de acidentes, assaltos e mortes faz com que o indivíduo se mantenha em um estado apreensivo constantemente. Do outro lado temos os reality shows, onde a pessoa desenvolve os vícios mais invisíveis como a fofoca, a maledicência e acabam escolhendo um personagem para torcer e condenando atitudes que não correspondem ao que ela já acredita.
Essa cultura usa o funcionamento de um neurotransmissor do cérebro bem famoso nos dias atuais, a dopamina. As características da dopamina estão relacionadas com à motivação e a sua atuação no sistema de recompensas do cérebro. De modo que, o nosso corpo sempre está em busca do equilíbrio interno, o que é conhecido como homeostase e dessa forma, sempre que a dopamina vai lá no alto, o corpo vai tentar compensar isso de outra forma. Perceba que sempre após grandes momentos de dopamina existe uma “queda” proporcional, quando bebemos muito, sentimos isso em certa medida através da ressaca, mas a ideia é que o seu corpo procura compensar aquele pico de dopamina.
O problema é que quanto mais recebemos estímulos que nos atraem, damos início a um processo que conhecemos bem em pessoas viciadas: a tolerância. A tolerância é nada mais do que o cérebro necessitando de doses cada vez maiores para nos entregar a mesma sensação das primeiras vezes. Muitas pesquisas apontam para a influência da internet como potencializador de disparos de dopamina, desregulando assim o funcionamento deste neurotransmissor.
A ideia de se afastar da dor e procurar o que é agradável vem causando danos enormes para a nossa sociedade atual. Muitas pessoas buscam evitar o desprazer seja através do uso de medicamentos opioides ou até mesmo buscando a diversão e o entretenimento a todo custo. As consequências destes movimentos é que ao buscar afastar a dor, não criamos os “calos mentais” que nos permitem enfrentar os desafios do futuro. No fim de toda a diversão está o tédio seja do ponto de vista filosófico como apresentei no início do texto até o ponto de vista biológico, dadas as condições bioquímicas presentes em cada um de nós.
E qual a solução que eu ofereço aos meus pacientes?
Abracem aquilo que é desconfortável! Seja um jejum (de músicas, de amigos, de drogas, de alimentos), seja um café sem açúcar, um banho gelado e por aí vai.
Lembre-se que classificar as coisas como: “isso é chato!” ou “isso é legal!” são classificações infantis e que evitar o desconforto vai fazer com que você tenha muitas dificuldades ao longo da vida.
Não quero dizer que a vida moderna não exerça pressão sobre nós, mas é nossa responsabilidade mudar a forma como vivenciamos as experiências no mundo.
Viver em busca de diversão e entretenimento pode ser a causa por trás deste vazio que você sente!
Experimente!
Pablo Barros
Psicólogo - CRP 06/190777