Vamos conversar!
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2024-11-24     Pablo Barros    

Agir ou reagir?

Lidar com o sofrimento é uma condição humana, de modo que, sempre que sentimos dor podemos fazer algo a respeito, porém, existem diversas situações que podem nos causar sofrimento e muitas vezes não apenas os ferimentos físicos, mas a dor da humilhação e até mesmo a perda de um ente querido. Os humanos foram capazes de reagir ao sofrimento ao longo da história, equilibrando sentimentos dolorosos e sentimentos prazerosos a todo instante. Através da sua capacidade de questionar, entender e solucionar problemas os humanos conseguiram criar as soluções mais incríveis para as dificuldades. Quando a dor é causada por outro – por como a pessoa se sente em relação a ela mesma ou até quando a dor era causada por pensar na própria condição, os seres humanos sempre buscaram a superação. Por exemplo, quando se deparam com a ideia de que a morte é inevitável, os humanos usaram vários recursos para criar respostas que vão desde a justiça e a organização social até mesmo as manifestações artísticas e religiosas.

 Todos os dias no consultório eu me deparo com o sofrimento em suas mais diversas formas e poder ajudar as pessoas neste sentido me enche de satisfação. Neste artigo trago alguns pontos que considero indispensáveis nesta batalha e que com a prática clínica tenho comprovado sua importância e eficácia.

Como disse no primeiro parágrafo a capacidade de conhecer sempre permitiu ao homem seguir em frente, porém, diversas demandas atuais não encontram na psicologia moderna respostas que satisfaçam. As teorias modernas sobre a motivação veem o homem como um ser que reage aos estímulos (teorias do comportamento) ou que obedece aos impulsos (teorias psicodinâmicas). Ao meu ver estas teorias não levam em consideração o fato de que em vez de reagir ou obedecer, o homem responde, ou seja, responde as questões apresentadas pela vida e através dessa via ele dá significado aquilo que lhe acontece.

O debate entre teorias pouco ajuda aqueles que necessitam e contribui para que o discurso sobre a força da psicologia fique cada vez mais fragmentado, alienando o homem daquilo que pode contribuir efetivamente com seu crescimento. Em seu trabalho Fausto, o poeta alemão Goethe nos oferece a chance de percebermos uma máxima dos dias de hoje através da fala de seu personagem Mefistófeles:

Doutíssimo varão, bem vos conheço!

Coisa que não toqueis, está a mil léguas;

O que não percebeis, negais que exista;

O que não calculastes, é mentira;

O que vós não pesastes, não tem peso;

Metal que não cunheis, dizei que é falso.

 

A psicologia moderna transformou o homem em um ser amputado, refém dos próprios instintos, voltado ao prazer e cada vez mais centrado em si mesmo. Mas afinal, poderia o homem encontrar sentido em sua dor com base nestes pressupostos?

 

Existem duas estratégias que podemos adotar quando o assunto é melhorar a nossa vida. A primeira é tentar fazer com que as condições externas se ajustem aquilo que queremos. A segunda é mudar como vivenciamos as condições externas para que elas se ajustem aos nossos objetivos. Por exemplo, a sensação de segurança é um elemento importante da nossa felicidade. Podemos instalar câmeras de segurança, se mudar para um bairro mais seguro, exercer uma pressão política para que a polícia em nosso bairro aumente. Todas essas atitudes dão conta de facilitar no ambiente condições mais alinhadas com os nossos objetivos. O outro método seria mudar aquilo que entendemos por segurança. Se pararmos de pensar que a segurança deveria ser perfeita e admitirmos que ela pode sim falhar, que riscos são inevitáveis a nossa noção de segurança terá menos chance de atrapalhar a felicidade.

Muitos mitos explicam a ideia de que mudar as condições externa não necessariamente melhora a existência. Muitos pacientes bem-sucedidos percebem que uma casa luxuosa, grandes carros, os filhos nas melhores universidades ainda não são suficientes para lhes trazer a paz. Muitas pessoas admitem que o sucesso material não traz felicidade, mas vivem uma luta sem fim para conquistar metas desta natureza. Riqueza, poder e status são poderosos símbolos de felicidade em nossa cultura. Muitas vezes estes símbolos distorcem a noção da realidade que deveriam representar. O que vejo no dia a dia da clínica é que qualidade de vida não depende diretamente do que os outros pensam de nós ou do que possuímos. Dito de outra maneira, nossa qualidade de vida depende de como nos sentimos em relação a nós mesmos e ao que acontece conosco. A qualidade de vida aumenta se a qualidade da experiência aumenta. Em vez de correr atrás de como ficar rico e influenciar pessoas, parece ser muito melhor descobrir como fazer as pequenas coisas da sua vida serem mais harmoniosas e mais gratificantes. Meus pacientes já me ouviram dizer muito: “Foque no que farta e não no que falta”.

Na logoterapia eu trabalho com o enfoque na educação para a responsabilidade e sempre trago ao paciente a reflexão sobre como ele está reagindo ao que lhe acontece. Como falamos nos primeiros parágrafos a segurança é sim um componente indispensável para a nossa noção de felicidade, porém se ficamos a vida toda em busca de segurança acabamos por nos tornar seres reativos, ou seja, nos tornamos seres passivos diante da realidade. Uma das premissas terapêuticas que partimos com a logoterapia é que se queremos valorizar o potencial humano em sua forma mais elevada, primeiro devemos acreditar que ele existe. Obviamente, não podemos nos permitir crer de forma cega neste potencial de modo que nos esqueçamos da realidade de cada indivíduo.

A busca pela força é uma poderosa ferramenta psicológica e com força não quero falar sobre dominação ou poder (caso sua cosmovisão tenha lentes foucaultianas). A noção de força que trabalho na clínica vem da virtude da fortaleza.

De acordo com Cícero “A fortaleza é a aceitação consciente do perigo e a capacidade de suportá-lo”. A fortaleza consiste em reprimir o medo, ou seja, resistir. É o uso da ira enquanto paixão e não como vício. Identificando o medo e resistindo a ele o homem que decide agir é forte.

O problema que você foge é exatamente o motivo da sua dificuldade neste momento. Sofrer faz parte da condição humana, porém, o homem é capaz de enfrentar as dores mediante a busca das virtudes. A fortaleza é apenas uma delas, mas te garanto que sem ela fica muito mais difícil qualquer luta.

No dia a dia é necessário a capacidade de assumir responsabilidade por nossa circunstância e uma forma de realizar isso é praticando a virtude da fortaleza. Não adianta buscar sempre o papel de vítima e lamentar. Aprenda a reagir da melhor maneira aos acontecimentos! Busque autoconhecimento, faça terapia.


Pablo Barros
Psicólogo - CRP 06/190777

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