Vamos conversar!
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2024-01-28     Pablo Barros     autoconhecimento

Percepção e Soberba

Você já se perguntou se a forma como você percebe os fatos é compatível com a realidade? Melhor ainda! Você já se perguntou a natureza das suas percepções? Já parou para pensar na interação normalmente invisível entre a sua forma de perceber as coisas e a complexidade do mundo? Bom, acho que são perguntas demais para um só dia, porém, neste post eu pretendo te ajudar com essas questões e permitir que você saia com algumas novas ideias. Antes de iniciarmos, quero que saiba que o trabalho da psicologia é exatamente este, ou seja, apresentar eventuais pontos cegos em sua capacidade de ler os acontecimentos em sua vida e relacioná-los com a forma como você se comporta. Vamos lá!

 

 

Em todos os sistemas que funcionam é muito difícil relacionar as partes e o todo, porém quando algum sistema para de funcionar essa relação é vista com mais facilidade. Você acredita que vê os objetos ou coisas quando enxerga o mundo, mas na verdade não é assim.

O nosso sistema de percepção é extremamente complexo e ele é capaz de auxiliar-nos na forma como habitamos o mundo, permitindo que nós possamos não apenas perceber as coisas per se como também a sua utilidade. Você percebe portas para atravessar, pisos para caminhar, mesas para apoiar e por aí vai. Na maioria das vezes resumimos as coisas e os objetos como ferramentas ou obstáculos. Esse movimento de percepção voltado para a utilidade das coisas pode se tornar muito perigoso, uma vez que ele pode acabar simplificando algo para que caiba na sua forma de compreender.

Por esse motivo é que devemos ser precisos em nossos propósitos, sermos específicos!

Quando avaliamos a percepção que temos de nós mesmos chegamos em um dos maiores vilões da psicologia contemporânea que é a famigerada, soberba.

No ambiente terapêutico é muito comum nos deparamos com a soberba e as suas mais diversas aplicações cotidianas, mas afinal, quem admite que é soberbo? Para contornar a sugestão, já ouvi diversas explicações de como o indivíduo é humilde, honesto e benévolo.

Do latim superbia, “arrogância”, a soberba é um sentimento que tem em sua natureza a pretensão de superioridade, ou como diria o Aquinate, um amor a grandeza imaginada. A soberba é querer para si o bem e a perfeição, mas afinal o que tem de errado nisso?

Existem duas instâncias em que a soberba se apresenta: a primeira é a instância da irascibilidade (irritabilidade), enquanto existe uma busca pela excelência sensível ou imaginável; a segunda é a ação da soberba na vontade, que visa uma excelência no inteligível, se você puxar pela memória, irá se lembrar de um certo Lúcifer que acreditava ser maior do que era, o que naturalmente se opõe a virtude da humildade.

A humildade se opõe a soberba de modo que na primeira o homem sabe as suas limitações e sabe seu lugar na hierarquia da realidade. Na soberba, a pessoa se coloca como a medida da realidade.

Uma das características mais notáveis da soberba é a de ocultar-se, de modo que em muitas ela acaba passando despercebida e vai se fazendo cada mais vez sutil na medida em que é combatida. O soberbo tem um conhecimento distorcido de si mesmo, já que perdeu a medida de seu próprio tamanho oferecida pela humildade e neste sentido acaba estimando para si mesmo sempre o bem maior do que o que é. Neste trecho é possível relembrar as palavras de Tomás de Aquino, quando diz que: “O que se deseja com veemência se crê com facilidade”.

O soberbo costuma aparentar exteriormente aquilo que ele não é interiormente, de modo que a ficção começa ser uma consequência bem clara da soberba. O desejo em se sobressair diante dos outros só pode existir naquele indivíduo que busca a excelência a todo custo. Deste desejo de sobressair diante dos outros é que se origina a tendência a depreciar o outro, que consequentemente terminará na inveja.

Todas essas características são os traços centrais de uma personalidade neurótica e entre os psicólogos, Alfred Adler foi aquele que conseguiu dar a soberba um lugar de destaque na personalidade neurótica, veja o que Adler disse sobre esta “vontade de poder”:

 

“Descobrimos que o objetivo final de toda neurose consiste na exaltação do sentimento de personalidade, cuja fórmula mais simples manifesta-se como uma exagerada afirmação de virilidade. Algumas vezes, o neurótico não tem consciência das suas derrotas, aparentes ou reais. Seu orgulho e seu sentimento de personalidade se recusam a registrá-las, mesmo quando ele se conduz se as reconhecesse.

 

A visão de Tomás de Aquino e Alfred Adler trazem luz as “verdades caídas no esquecimento” da psicologia moderna. Tratar a soberba é em primeira instância ter percebido os elementos dela em sua personalidade, para que no ambiente terapêutico não seja o caso de um cego guiar o outro (Lc 6 39,45). Adler vai dizer que essa atitude de autodivinização existe na tentativa de superar o sentimento de inferioridade e insegurança próprio.

Novamente, gostaria de chamar a sua atenção para a questão da nossa percepção e como ela nos prega peças. Um carro, da forma como nós o percebemos, não é uma coisa ou um objeto. É algo que nos leva onde queremos ir. Na verdade, é só quando ele não é mais capaz de se mover e nos levar onde queremos que passamos a percebê-lo. Quando esse carro para de repente ou quando se envolve em um acidente é que somos forçados a entender a quantidade de partes e a sua relação com o todo. Quando esse carro falha, nos damos conta da nossa incompetência em relação a sua complexidade.

Quero dizer que quando as coisas quebram, tudo aquilo que você vinha ignorando aparece. Quando não conseguimos mais especificar com precisão, nosso mundo estremece e o caos começa a surgir. Quando agimos de forma desleixada e imprudente deixamos que as coisas saiam do controle e tudo aquilo que nos recusamos a prestar atenção se acumula e se volta contra nós.

Quando tudo desmorona e este caos aparenta ser muito maior que a sua capacidade, lembre-se que você é capaz de reestabelecer a ordem através da sua linguagem, sim, isso mesmo, a sua linguagem. Seja específico! Se falar com precisão você é capaz de compreender as coisas, colocar cada uma no seu lugar, criar um novo objetivo e superar normalmente. Todavia, se falamos de modo descuidado, o destino permanece desconhecido, indefinido, a incerteza nunca vai embora e nossa relação com o mundo se torna cada vez mais problemática.

O que eu quero com este artigo? Ajudar você confrontar o desconhecido. Especifique o seu trajeto. Admita suas limitações. Diga para quem está junto com você quem você é. Siga adiante de forma sincera e direta.


Pablo Barros
Psicólogo - CRP 06/190777

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