Minha intenção com este artigo é apresentar algumas formas de interpretação dos eventos de sofrimento e luto que nos rodeiam, através da perspectiva da logoterapia. É provável que a logoterapia seja algo novo para você, então, antes de aprofundarmos em nosso tema central, quero lhe oferecer uma introdução a essa escola da psicologia.
Conhecida como a Terceira Escola Vienense de Psicologia ou como a “Psicoterapia do Sentido da vida”, a teoria de Viktor Emil Frankl tem uma visão de homem bem diferente das outras concepções de sua época. A logoterapia é marcada por sua exploração da experiência imediata, partindo do princípio da motivação humana, da educação para a responsabilidade e para o encontro do sentido da vida.
Frankl percebeu algumas limitações nas teorias psicológicas de seu tempo, mais especificamente as teorias de Freud e Adler. A preocupação com o equilíbrio interno, através de uma constante busca para alívio das tensões que tem por objetivo a satisfação das necessidades, era na visão de Frankl, o fim de toda a atividade que permeia a vida humana, de modo que, as noções de “felicidade”, “poder” e “prazer” acabam servindo como foi denominado por Frankl, um “princípio autoanulativo”. Dito de outro modo, a busca doentia por uma felicidade ou sucesso, em detrimento da busca pelo sentido da vida, é a garantia de não os encontrar.
De acordo com Frankl, não se deve buscar a felicidade, pois a medida em que houver uma razão para ela, então ela ocorrerá automaticamente. Com base nesta premissa é possível observar a visão de Frankl sobre a condição humana e a sua relação com o sofrimento, uma vez que para ele, o que o homem precisa não é um estado livre de tensões, mas antes um objetivo que valha a pena.
Neste momento você pode estar se perguntando: “Por que certas pessoas são fortes e conseguem superar os seus problemas, e outras não?”
Para Viktor Frankl o fator determinante para essa questão é a “decisão”, ou seja, a liberdade de escolha de tomar uma decisão, a liberdade de ser quem se quer ser independentemente das circunstâncias. Circunstâncias essas que determinam apenas em parte o comportamento, uma vez que desejamos agir livremente como seres responsáveis, um ser plenamente humano.
Para seguirmos, é necessário que possamos compreender o que significa o Niilismo. De modo bem objetivo, o niilismo é a negação do sentido. Uma pessoa (ou até mesmo você enquanto lê este texto) pode indagar: “Quem disse que existe realmente um sentido para a vida? Eu me recuso a aceitar uma visão de mundo assim!”. Este modo de pensar é caracterizado por um ceticismo em relação ao sentido e que eventualmente vai criar um relativismo em relação aos valores. O problema deste pensamento, de acordo com a logoterapia, é que todo relativo só pode existir mediante a um absoluto que o condicionou. Deste modo, tanto o valor quanto o sentido só podem ser alcançados a medida em que são assumidos em nome de algo mais elevado, por amor a alguém ou a uma tarefa, através de um sacrifício.
Se você chegou até aqui está percebendo que aos poucos estamos adentrando o território do sofrimento, sim, quando falamos de sacrifício, estamos falando de algo que nos oferece a chance do crescimento. As coisas só tem valor para serem sacrificadas!
Na história da humanidade muito sofrimento já foi vivenciado, da desnutrição a violência, das pandemias até as guerras isso para não falar da pobreza e miséria que assolam diversos países do mundo. O fato é que o sofrimento é algo inerente a condição humana e para Frankl, ele traz sentido a vida, ao passo que o indivíduo decide o que fazer diante da dor. De acordo com essa perspectiva duas opções surgem no horizonte do sofrimento: “render-se” passivamente ou “lutar” ativamente por algo ou por alguém.
Viktor Frankl elegeu três categorias de valores que podem te ajudar a compreender o fenômeno do sofrimento e a sua relação com o sentido da vida e eu vou apresentá-los a vocês. Valores criadores; Valores vivenciais e Valores de atitude. O primeiro diz respeito a realização através de um fazer, o segundo através de uma passiva (arte por exemplo) e o terceiro, este sim, quando se tem que aceitar algo tal qual ele é. Com base nesta categoria de valores, é possível compreender que a vida humana pode atingir sua plenitude não apenas no gozo, no desfrutar, no receber, mas também no sofrimento.
A ação do homem diante daquilo que é irremediável, ou seja, diante daquilo que não se pode mudar é o critério decisivo para a compreensão dos tais valores de atitude. Dito de outro modo, a capacidade que o homem tem de amar a realidade, ou como diria Ortega y Gasset, a reabsorção das circunstâncias é a condição sine qua non para que se cumpra o destino do homem.
Viktor Frankl fez uma distinção bem objetiva entre doença e sofrimento, de modo que, o indivíduo pode sofrer sem estar doente e estar doente e não sofrer. O fato de o sofrimento ser algo que “vem de fábrica” em todo ser humano, o não sofrer, pode sim ser uma doença. O que nos permite deduzir que se a vida tem um sentido, o sofrimento também o terá.
Sofrimento, culpa e morte são o que Frankl denominou de “tríade trágica”, de modo resumido, são características da análise existencial que a logoterapia oferece ao paciente a chance de compreender que ele é finito e que tem uma responsabilidade diante do sofrimento. Atualmente, gozamos de uma das melhores épocas de toda humanidade, repleta de ciência, de saber e de consciência, a famosa era do “autoconhecimento”. Em contrapartida, nunca se falou tão pouco sobre a consciência da responsabilidade.
Em nossos tempos somos bombardeados pelo desespero, e de acordo com Frankl, desespero é o sofrimento sem sentido. Á medida que vamos adicionando sentido ao nosso sofrimento, podemos transformar uma situação adversa em uma realização pessoal. Transformar a tragédia em triunfo pessoal só é possível quando sabemos onde queremos chegar, quem nós somos e que devemos fazer.
Reconhecer a nossa incapacidade de atribuir sentido a vida é a principal condição para que o sofrimento, a culpa e a morte não se tornem os limitadores da sua vida. A resiliência serve como a porta de entrada para uma vida com sentido. Através da resiliência é possível não apenas superar uma situação adversa, como também encontrar valores por trás da dor.
A resiliência vai produzir em você uma capacidade criativa, uma melhor aprendizagem, uma maior capacidade de superação e consequentemente de crescimento. À medida que vamos tomando essa ferramenta como fundamental em nossa existência é possível colocar-se sempre “acima” da situação. Acima das dores, o homem é capaz de encontrar-se com a liberdade que irá desfrutar em sua jornada na vida.
Quanto mais o homem infunde sentido a sua vida, mais ele é capaz de suportar o sofrimento, por mais que as vezes tenhamos o prazer reduzido, jamais deixamos de ter aquele propósito que nos sustentará até o fim dos dias.
Pablo Barros
Psicólogo - CRP 06/190777